HIPERBREVES

BEIJO

A melhor lembrança que tem do marido é o primeiro beijo. O que veio depois, nos anos todos que se seguiram, nunca deixou de ter importância, mas foi ali, naquele primeiro contato íntimo, que uma história começou a ser escrita. Naquela manhã em que ela decidira partir, o gosto desse beijo lhe entravava o caminho: as malas estavam prontas e ela ainda estava estancada na beirada da cama, imóvel. Sabia: todas as histórias de amor eram iguais e não havia como escapar – a não ser contrariando o script, ignorando anseios e expectativas e, sem direito a arrepender-se, honrar até o fim o pacto feito nas noites tórridas em que se julga o amor eterno. Não era o seu caso: estava decidida a um novo recomeço. Mas incomodava um pouco a sensação de que, não importava quais caminhos percorresse, aquele beijo havia selado sua vida. 

| Débora Böttcher |
Últimos posts por Débora Böttcher Lessa (exibir todos)

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Administra esse mini portal - que é uma junção dos sites Babel Cultural, Estilo 40, Hiperbreves e Papo de Letras.