CRÔNICAS

O ACASO DA VIDA

“Eu cheguei onde cheguei porque tudo que planejei deu errado.” Rubem Alves

Amo essa frase porque ela fala de mim também. E continuo amando Rubem Alves, que é daquelas pessoas eternas.

Tive o privilégio (e a honra) de conviver com ele semanalmente nos anos 90: eu trabalhava no jornal para o qual ele escrevia a crônica dominical. Às sextas-feiras, ele vinha entregar seu texto – pessoalmente, num disquete – é, num 💾.

Eu dizia que a gente podia mandar buscar, mas ele respondia que não: fazia questão de vir me ver. Isso porque, um dia explicou, eu tinha o nome da mulher da vida dele – aquela perfeita, congelada, o amor que não deu certo e ele nem sabia por onde andava. Num dos livros que me presenteou escreveu: “Para Débora, abelha, ferrão e mel.” Não sei se foi mesmo pra mim… ♥️ Também “ficou com raiva” quando resolvi me mudar pra Curitiba – coisa que não deu certo (acabei indo parar no Rio, antes de aportar de vez em Sampa).

Era gentil, bem humorado, nato contador de histórias, mas exigente: queria a diagramação perfeita, a revisão perfeita, a ilustração perfeita. A gente não podia errar.

Essa frase foi dita já perto do fim de sua longa e iluminada existência e me encaixo porque minha vida está exatamente onde está pela mesma razão que a dele esteve: ignorando os planos que fiz e seguindo outro roteiro.

Lembrei disso hoje ao conversar com @danirocha_20 sobre outra frase emblemática – essa, de Steve Jobs: “Ligue os pontos”.

É curioso como coisas sem sentido que nos acontecem, que aprendemos sem saber muito bem pra que, que fazemos sem objetivo definido, pode ser, no futuro, o que nos define.

Tem gente que tem uma trajetória em linha reta. Eu não tive – e acho que isso foi o melhor que podia me acontecer.

Para muitos, os caminhos da vida não são os traçados – e embora isso às vezes nos frustre, na “visão de helicóptero” talvez se consiga enxergar que as curvas, os percalços, esse traço turvo que nos conduziu aonde chegamos, é o mais próximo de uma vida plena: é como se existisse uma carga com sua própria forma aleatória de nos impulsionar em direções diversas, até contrárias, provando que o acaso é, de fato, a energia mais poderosa que nos rege.

Viva, Rubem! Viva pra sempre! ♥️


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Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Administra esse site.

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