CRÔNICAS

DA BANALIDADE DA VIDA

“- O Rei morreu! | – Viva o novo Rei!” (Do Popular Inglês)
Três dias depois da morte da escritora Zélia Gattai, eu li que estavam abertas as inscrições para a cadeira dela na ABL.
A China ainda contava seus mortos no terremoto que dizimou cidades praticamente inteiras, mas havia imagens por todo canto de homens numa função, digamos, meio fora de contexto para o momento: empenhando-se na restauração dos monumentos. Ao pé de suas escadas, descansavam mochilas das milhares de crianças soterradas numa escola próxima.
Quando o senador  Jefferson Péres morreu, me peguei pensando em quanto tempo demoraria para que sua cadeira fosse ocupada.
É como as coisas são: a vida não pára e é urgente. Pra que se demorar em prantos desnecessários?

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Black Face Out Of White Face – Image by © Images.com/Corbis

Outro dia, fui carregada por uma prima para uma palestra espírita. No meio do sermão, o orador disse que fora convidado para integrar uma equipe que está escrevendo um livro na tentativa de responder as 100 maiores questões da humanidade. Informou que podíamos deixar nossas perguntas na urna colocada na entrada e continuou dizendo que a interrogação mais recorrente é “O que há depois da Morte?”. Pareceu-me que ele não sabia responder.

Na seqüência, fez uma brincadeira: “Tenho aqui em mãos uma passagem para Paris, outra para a Itália, uma para Londres, também para Nova Yorque, e uma para o Além.” Não havia voluntários para o último destino.

A atriz Julliane Moore, em entrevista na pré-estréia em Cannes do filme Blindness, que protagonizou, disse uma frase que me chamou a atenção: “Quanto mais envelhecemos, mais gostamos da vida.” Que o diga Zélia Gattai que, aos 91 anos, dias antes de ser encaminhada ao hospital para a cirurgia que desencadearia em sua morte um mês depois, disse ao filho que tinha medo de morrer.

É como as coisas são: uma hora a vida estanca e deixa de ser urgente – para nós.

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Mas a maioria de nós não pensa na morte, vamos combinar. Apesar de sabermos que todos, sem exceção, vamos nos deparar com a tal Sra., não ficamos elocubrando quando isso se dará – inclusive porque quem o faz pode ser encarado como depressivo, até louco!

Então a gente finge que não é com a gente – afinal, foi o outro que morreu, não eu. Por que é que eu vou perder tempo com isso?

Eu sei que esse é um assunto do qual ninguém gosta de tratar – Clarice Lispector diria que é uma gafe falar sobre isso! -, mas vem me incomodando (ainda mais) a banalidade com que a gente embala nossos mortos.

É tudo uma estatística: a bala perdida, os acidentes de trânsito, o terremoto, o vulcão, os furacões, as doenças terminais. As pessoas viram um número para manchetes e planilhas, os governantes decretam luto de três dias, se a estatística é grande a população faz um minuto de silêncio – na China fizeram três! -, e seguimos em frente.

A mim parece que a vida está perdendo o valor. Antigamente – e nem precisa ir tão longe, basta caminhar uns cinqüenta, cem anos – a sociedade chorava seus mortos com mais sentimento, e se conformava menos com o ceifar da vida. Hoje, com tanta modernidade, com tanta evolução, morre-se aos solavancos e a gente acha tudo normal – se vacilar, nem se comove mais.

É como as coisas têm sido. Daí vou parodiar a própria Morte no livro A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak: “Os seres humanos me assombram.”

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Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Administra esse mini portal - que é uma junção dos sites Babel Cultural, Estilo 40, Hiperbreves e Papo de Letras.