HIPERBREVES

DNA

Depois de dois anos frustrantes na tentativa do casal engravidar, ele foi ao médico. Os exames garantiram esterilidade congênita. Ele alegou que já tinha um filho: o silêncio que se instalou pela sala tinha um peso e uma dor que lhe dilaceravam o peito. Ainda assim, quis tirar a prova: o DNA exterminou de vez dúvidas e esperanças. Em casa, confrontou a mulher: ela chorou, negou – em vão. Enquanto fazia as malas, avisou que o menino ia saber que não era seu pai biológico – mas sempre seria seu pai. Num rompante, ela revelou o caso furtivo, rápido, sem importância, com seu irmão mais velho. O abismo que se abriu ao redor deles tinha nome, sobrenome, rosto e parentesco. Só não tinha fundo ou saída – nem volta.

 

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Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Administra esse mini portal - que é uma junção dos sites Babel Cultural, Estilo 40, Hiperbreves e Papo de Letras.