HIPERBREVES

ESPERANÇA

Escrito por Carla Dias
Seu coração há tempos bate em descompasso. Deram-lhe cinco, seis meses no máximo, mas por aqui ele continua, e já se foram quase dezessete anos. Quando soube que morreria tão jovem, foi acometido pela sensação de ter sido desprezado pelo universo, de ter nascido somente para servir de descarte. Rebelou-se, largando faculdade e emprego bem remunerado. Jogou-se na vida com a lascívia e odesespero que lhe cabiam, e deu de experimentar de tudo um pouco, e de coisa e outra, o excesso. O tempo passou, o dinheiro sumiu, o interesse pelo risco esvaneceu. Aderiu aos empregos temporários, para não ocupar lugar de quem tivesse uma vida para ganhar a vida. Aprendeu que temporário também pode ser a benquerença, que em tempos de efemeridade lhe doendo na carne, só fez abraçar a solidão. De certa forma, ele morreu mesmo há dezessete anos, restando-lhe somente engolir – com pão de anteontem – que, quando perdemos a esperança, rejeitamos a possibilidade de o universo voltar atrás. 

| Carla Dias |
The Blind Man’s Meal
© Pablo Picasso
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Carla Dias

Autora de "Estopim", "As Asas da Borboleta", "Jardim de Agnes", "Os Estranhos" e "Azul", além de participação com contos e crônicas em mais quatro coletâneas - entre elas, "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde ainda escreve às quartas-feiras. Trabalha como Produtora de Eventos junto à baterista Vera Figueiredo [IBVF Produções]. Vive em São Paulo.