HIPERBREVES

PESADELO

Ele nunca fez parte do grupo de pessoas que prepara listas de metas ou desejos para o novo ano. Acredita que tal movimento só vale para pessoas disciplinadas e persistentes – não é uma coisa nem outra. Seus dias são sempre uma surpresa e pouca rotina os guia – o que considera um milagre: programação nunca foi seu forte. Como também não é uma pessoa ansiosa, nem das que cria expectativas, tudo que lhe chega é aceito sem grandes arroubos. Não é dado a desatinos nem paixões – ele anda pelo caminho do meio. Mas uma coisa o afeta profundamente: as tragédias sem sentido – para elas, nunca esteve preparado. Então, quando naquela manhã a irmã gêmea deu-se o tiro fatal, ele pensou que não sobreviveria com aquela dor. Ante a notícia, ficou parado com o celular na mão e quando alguém falou com ele de novo, pensou que estava dentro de um pesadelo sem fim. Depois dos protocolos finais, continuou pensando que ainda ia despertar daquele sonho ruim, mas nunca mais saiu de dentro daquela angústia.

| Débora Böttcher | 

Últimos posts por Débora Böttcher Lessa (exibir todos)

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Administra esse mini portal - que é uma junção dos sites Babel Cultural, Estilo 40, Hiperbreves e Papo de Letras.