HIPERBREVES

SAUDADES

Naquela tarde mansa de outono, ela não soube precisar se foi um rosto, o cheiro da chuva, o latido de um cão, se foi o vento, um grito distante, um avião riscando o céu. Talvez tenha sido a menina triste vendendo balas no semáforo, o dia nublado, as crianças atrasadas pra escola, o trânsito vagaroso, a discussão com o marido no fim de semana. Não soube dizer se foi aquela árvore no meio da estrada, seca e sem esperança, ou a notícia da doença terminal da amiga de infância. Mas, definitivamente, foi quando estava a caminho do supermercado que rompeu-se a inquietação, deu-se uma explosão na memória, uma melancolia crescente, e ela se deu conta: sentia saudades do pai. E a enxurrada de lágrimas foi a única coisa que a salvou daquela dor…
Últimos posts por Débora Böttcher Lessa (exibir todos)

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Administra esse mini portal - que é uma junção dos sites Babel Cultural, Estilo 40, Hiperbreves e Papo de Letras.