HIPERBREVES

TEMPO

Escrito por Patrícia Daltro

Teve um tempo em que ela sentia saudades daquilo que ainda não era. Angustiava-se com o que poderia ter sido, sem perceber que o que vivia lhe escorria dos dedos, areia dos castelos que construía na praia. Tão presa no amanhã, suas teias se enredavam nos olhos e agrilhoavam seu peito – que batia descompassado: apressado demais em ter o futuro, não sabia a cadência suave dos segundos do agora. Já ele, não. As correntes que arrastava eram tudo aquilo que já fora. Trazia na face lembrança de eras. O passado fazia também um batuque descompensado no seu coração. Se o dela soava acelerado em busca do que ainda não vivera, o dele lentamente se perdia nos rastros do outrora. Era essa dicotomia do tempo que os ausentavam entre si. Como conciliar o pretérito mais que perfeito dele com o futuro do pretérito dela? Talvez sempre seguissem assim, separados por tempos verbais – nem a gramática pode quando a conjugação vem no imperativo. Por se amarem hoje, seguem juntos no infinitivo do verbo amor.

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Patrícia Daltro

Arte é o que me define. Na escrita e no tecido. Jornalista, artesã e escritora. Rio de Janeiro.